quarta-feira, 17 de junho de 2020

A nova história, seu passado e seu futuro

A história nova é uma corrente historiográfica nascida nos anos 1970 na França, a partir de novas abordagens e estudos que contaram com a forte influência de Jacques Lê Goff tendo como forte contribuinte a revista dos Annales.
Para Peter Burke, descrever o que é a história nova é uma tarefa árdua para isso ele começa por descrever o que não é história nova, utilizando-se de seis pontos que apontam os contrastes existentes entre a antiga e a nova história.
  1. A história tradicional sempre se preocupou com a história internacional e nacional, deixando de lado a regional. Outro fenômeno a ser considerado é o da política como formadora de história onde segundo o catredático de história Sir John Seeley: “ História é a política passada, política é a história presente”. Em contradição com a história tradicional a história nova considera toda atividade humana como parte da história.
  2. A história tradicional preocupa-se com a produção de uma história factual. Para a história nova o mais importante são as estruturas que permeiam essas transformações e a análise dos mais diversos personagens.
  3. A história tradicional é vista do alto, ou seja, a partir dos grandes políticos, militares e estadistas desconsiderando a história de personagens comuns. Já a história nova preocupa-se com a história vista de baixo, considerando as opiniões de pessoas comuns como parte da história.
  4. A história tradicional utiliza-se de fontes e registros oficiais considerando essas como evidências seguras para a história, utilizando-se também de dados quantitativos atingindo seu ápice por volta dos anos 50 e 60. A história nova nos propõe uma visão que possibilita o uso de outras evidências que possam contribuir para a história como as fontes praia e visuais. Considerando a história antes da escrita.
  5. A história tradicional busca pela verdade ou uma versão exata dos fatos. Já a história nova considera as versões que aproximam da verdade e das que se distanciam ou não da verdade.
  6. A história tradicional utiliza-se da história objetiva, capaz de relatar um fato como ele realmente ocorreu. Para a história nova, existe um relativismo cultural presente nas atividades humanas e própria escrita da história.
O descontentamento com a história tradicional já era evidente há alguns períodos da história. Acredita-se inclusive que a Escola dos Annales foi uma grande contribuinte para essa corrente de forma positiva através da propagação de sua posição. Porém Peter Burke retorna ao tempo por volta de 50 anos a.c onde o historiador grego Políbio denunciou o que pra ele seria um método retórico. O que Burke quer dizer é que os historiadores já tratavam a história de forma tradicional e não havia um confronto direto com a escrita da história naquela época.
Embora a História nova tenha um grande protagonismo nessa nova corrente onde aqueles que sempre tiveram suas vozes silenciadas agora passam a ter papel fundamental para a produção historiográfica é preciso atentar-se também as problemáticas que surgiram com essa nova metodologia. Segue a baixo um curto vídeo de um Slide produzido pela Dr. Susane Rodrigues de Oliveira abordando os principais problemas da história nova.

A micro-história (mais preocupados com a cultura da época)

Giovanni Levi e Carlos Ginzburg foram os pais da micro-história ao contraio da história vista de baixo, o estudo da micro-história está mais interessado em estudar a cultura através de um personagem, porem às duas metodologias se interligam em alguns aspectos.
 Podemos  ver que a micro-história também luta com o mesmo problema positivista trazido pelas elites por ausentar importantes agentes históricos, por serem apenas pessoas “comuns” a micro-história ira mostrar, por exemplo, que dentro do maio de 68 existiu um determinado cidadão que teve importância dentro do processo de desencadeamento desse fato histórico, mostrando como as pessoas se comportaram naquela época tanto no modo social e cultural, outro exemplo é do livro “o queijo e os vermes” de Carlos Ginzburg onde é retratado a vida de Menocchio um camponês que viveu na época da inquisição e através dos fatos narrados podemos ter novos saberes, historiográficos e saber dos hábitos sociais e culturas daquela sociedade local, a exemplo do Menocchio o personagem nos ajudam a trabalhar em uma dimensão micro que seria a vida social e cultural dele e da região que vai se relacionar com a dimensão macro que seria a inquisição vivida por ele. 

História das Mulheres

A historia das mulheres como metodologia acadêmica começou no inicio dos anos 60 junto com o movimento politico do feminismo e da luta por igualdade de direitos , junto a isso essa história sempre foi ligada de alguma forma com a política, porém em meados dos anos 80 a historia das mulheres começaram a ter outras visões, como a do cotidiano, a da questão familiar e a de questionamentos do passado, pois começaram a ser divulgados as historias das mulheres no passado, que antes eram escondidas por uma cortina da sociedade patriarcal, Houve um grande aumento de artigos e monografias, no entanto havia ainda uma grande resistência por meio dos intelectuais e da academia. Os historiadores na época que tocavam no tema das histórias das mulheres eram chamados de historiadores feministas. Houve esse distanciamento da politica e essas ressonâncias, mas a história das mulheres sempre teve presente no movimento feminista e na politica.

Nos anos 60 também teve um grande incentivo para a entrada de mulheres na faculdade, pelo menos nos Estados Unidos, houve esse incentivo para as mulheres conseguirem o PhD e houve até um apoio financeiro envolvido, porem é visto também um preconceito dos homens ao ver aos mulheres elas se formando em profissões ditas como intelectualizadas, as mulheres não deixaram de lutar nos centros acadêmicos e não ficaram caladas, para denunciar a persistências das desigualdades, as mulheres formavam facções para pressionar suas exigências . Com essas novas reivindicações houve também uma identidade coletiva se formando e que nela havia um pensamento que era das historiadoras que eram diferentes do conceito amplo de historiadores, pois as historiadoras tinham particularidades na pesquisa que os historiadores não prestavam atenção até o momento e que a questão do sexo influenciava na questão da empregabilidade. Esse discursão levou o debate do termo “profissionalismo” e “politica”.
Outro ponto interessante sobre é a história versus ideologia, pois com a emergência da história das mulheres como um campo de estudo foi aumentando a história já escrita teve que ter algumas revisões, por que as historias dessas mulheres que estavam encobridas pela ideologia patriarcal foi sendo reveladas, muitos não gostavam dessa revisão e dessas descoberta, pois afetava os que eles achavam que era o “certo”. Houve também o começo da tradição historiográfica feminina e da cultura das mulheres.

Houve muitas mudanças e muitos avanços mas ainda somos uma sociedade que ainda há o machismo estrutural e que ainda precisa muito de divulgação e pesquisa histórica sobre as mulheres de nossa historia , também não só as mulheres da elite ou as grandes mães ou as grandes “ devassas”, mas sim de todas e do contidiano.

História do corpo

No capítulo “A história do corpo” (o qual se trata de um tema extremamente complexo) o historiador Peter Burke abre uma interessante discussão sobre o papel e “posição” do corpo na história e no seu estudo, Peter Burke começa o texto afirmando que o corpo, em um contexto histórico, ainda é um mistério e sempre foi delimitado por diferentes padrões em diferentes épocas e foi constantemente afetado por diferentes características em diferentes sociedades, sendo assim, podemos concluir que o estudo do corpo ainda é algo extremamente abrangente e complexo, pois não podemos estudar o corpo como um todo mas sim estudar as diferentes concepções e características diferentes.


Peter Burke também trabalha bastante com o dualismo de “corpo e mente” afirmando como o corpo muitas vezes é reduzido a uma simples “ferramenta para a sexualidade” e é substituída pelos livros nos estudos e, segundo o mesmo é difícil estabelecer uma relação entre a carne e a mente, sendo essa uma dualidade um pouco paradoxal.

Dessa forma, podemos concluir que a história do corpo ainda é um grande mistério ainda a ser solucionado, o estudo do corpo em contexto histórico depende de diversos estudos diferentes sobre o papel do corpo em cada sociedade, recomendo a leitura do texto para um melhor entendimento desse denso e complexo contexto da história.


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